Abra qualquer portal de notícias agora.
Clique numa matéria. Role até a foto que ilustra o texto. Leia a legenda.
Tem uma chance grande de que ela termine assim: Foto: divulgação.
Sem nome. Sem crédito. Sem nenhuma indicação de quem produziu aquela imagem.
Isso virou tão comum que ninguém estranha mais. Mas esse apagamento não começou com a internet. Começou décadas antes, quando a fotografia perdeu o lugar que um dia ocupou no centro da narrativa jornalística.
Quando a imagem era o ponto
Na década de 1920, jornalistas alemães estavam inventando algo novo. As redações da Berliner Illustrirte Zeitung e da Münchner Illustrierte Presse descobriram que fotógrafos com câmeras leves como a Leica conseguiam capturar a vida como ela era, sem poses, sem encenação. O fotógrafo deixou de ser um ilustrador técnico e virou um repórter. A imagem deixou de complementar o texto e passou a contar histórias por conta própria.

Adelaide Hall , estrela de
Blackbirds de 1928 no Moulin Rouge, intitulada “Au revoir Black Birds!”, despedindo-se após quatro meses de exibição .
Os franceses levaram isso adiante. A Vu, criada por Lucien Vogel em 1928, foi a primeira grande revista a usar fotografias de forma dinâmica e arrojada, cobrindo política, sociedade e os horrores que antecederam a Segunda Guerra. Henry Luce estudou a Vu a fundo antes de lançar a LIFE, em 1936.
A LIFE foi o ápice desse movimento. Junto com a sua rival americana Look, com a britânica Picture Post, com a alemã Stern e com a francesa Paris Match, ela formou o que hoje se chama de Era de Ouro do Fotojornalismo. O slogan da Paris Match resumia o espírito do gênero com precisão: o peso das palavras, o choque das fotos. Não era metáfora. Era uma declaração editorial de que a imagem tinha peso próprio, que ela não estava ali para decorar.
No Brasil, o formato teve seu equivalente glorioso. O Cruzeiro, do império de Assis Chateaubriand, atingiu seu auge nos anos 40 e 50 com reportagens visuais épicas produzidas pela dupla formada pelo fotógrafo francês Jean Manzon e o repórter David Nasser. A Manchete, criada por Adolpho Bloch em 1952, apostou numa qualidade de impressão superior e em imagens espetaculares que documentaram a construção de Brasília, o Carnaval, as belezas do país. O Brasil inteiro lia essas revistas. E o nome do fotógrafo estava lá, na legenda, porque a fotografia era o motivo pelo qual as pessoas compravam a publicação.
O que mudou nos anos 70
A LIFE encerrou sua edição semanal em 1972. A Look fechou em 1971. A Picture Post já havia fechado em 1957. O modelo econômico que sustentava essas publicações não resistiu à chegada da televisão, que passou a entregar imagem em movimento para dentro das casas com uma velocidade que nenhuma revista conseguia acompanhar.
Com o fim das grandes revistas ilustradas, o centro de gravidade do jornalismo impresso se deslocou. O texto escrito voltou a ser o elemento principal. A fotografia passou a existir para apoiar a narrativa verbal, não para protagonizá-la. E quando a imagem deixou de ser o ponto, o nome de quem a produziu começou a perder relevância editorial.
Esse processo foi gradual e silencioso. Não houve uma decisão formal de que créditos fotográficos importavam menos. Simplesmente, na prática diária das redações, a pergunta “quem tirou essa foto?” foi sendo feita com menos frequência. E quando o jornalismo digital chegou, com sua velocidade e seu volume, essa pergunta quase desapareceu.
“Foto: divulgação” não é um crédito
Divulgação não é uma pessoa. Não é um estúdio. Não é um autor.
É uma palavra que ocupa o espaço onde um nome deveria estar, criando a aparência de que o crédito existe sem que ele exista de verdade. É o equivalente de assinar um artigo como “redação” quando há um jornalista específico que escreveu cada palavra.
A questão não é só ética, embora seja também ética. É legal. A Lei de Direitos Autorais brasileira é clara ao estabelecer que o autor de uma obra tem o direito de ter seu nome associado a ela sempre que ela for utilizada publicamente. Uma fotografia é uma obra. Publicá-la sem crédito não é descuido aceitável. É violação.
O problema é que essa violação acontece com tanta frequência e tão pouca consequência visível que se normalizou. Assessores de imprensa enviam releases com imagens sem identificar o fotógrafo. Redações publicam sem perguntar. O “foto: divulgação” entra como padrão automático e ninguém questiona.
O que o assessor de imprensa tem a ver com isso
Muito.
Quando um assessor de imprensa envia material para a imprensa, ele é o intermediário entre o produtor da imagem e o veículo que vai publicá-la. Se ele não identifica o autor da fotografia no material enviado, está criando as condições para que o crédito desapareça.
Isso pode acontecer por preguiça. Pode acontecer porque o cliente não soube informar quem produziu as imagens. Pode acontecer porque a cultura interna da assessoria nunca tratou isso como prioridade. Em alguns casos, pode acontecer porque identificar o fotógrafo significa reconhecer que as fotos foram feitas por um profissional contratado e pago, e há algum interesse em obscurecer isso.
Qualquer que seja a razão, o resultado é o mesmo: um profissional que produziu um trabalho tem seu nome apagado da obra.
O que o jornalista pode fazer
Perguntar.
Quando uma imagem chega sem crédito identificado, a resposta mais fácil é publicar com “divulgação” e seguir em frente. A resposta correta é perguntar à fonte quem produziu a fotografia antes de publicar.
Isso leva trinta segundos. E muda completamente a relação que o veículo tem com a ética de crédito autoral.
Não é sobre exigir um portfólio completo do fotógrafo. É sobre tratar a imagem com o mesmo respeito que o texto recebe. Nenhuma redação publicaria uma matéria sem identificar o autor. A lógica deveria ser a mesma para a fotografia que acompanha essa matéria.
Por que isso importa além da lei
Crédito fotográfico é também memória.
Quando uma imagem circula sem nome, ela perde rastreabilidade. Daqui a dez anos, ninguém vai saber quem a produziu, em que contexto, com qual intenção. A fotografia vira um arquivo anônimo num banco de dados, desconectado do profissional que estava lá, que enquadrou aquele momento, que tomou aquela decisão visual.
As grandes revistas da Era de Ouro entendiam isso. O nome de Jean Manzon nas páginas d’O Cruzeiro não era protocolo. Era reconhecimento de que aquele olhar específico, aquela presença naquele lugar, aquela escolha de enquadramento, tinham valor autoral. A imagem tinha dono. E o dono tinha nome.
Essa lógica não envelheceu. O que envelheceu foi o hábito de aplicá-la.
O que muda quando o crédito aparece
Muito pouco no espaço da página. Uma linha, um nome, às vezes o nome do estúdio.
Mas o que essa linha representa é diferente: o reconhecimento de que existe um profissional por trás daquela imagem, que tomou decisões técnicas e criativas para produzir aquele resultado, e que merece ter seu nome associado ao trabalho que fez.
A Paris Match sobreviveu ao colapso das revistas ilustradas porque entendeu que imagem com peso e nome com crédito formam uma combinação que o público reconhece e valoriza. Essa lição continua válida, em qualquer plataforma, em qualquer formato.
Dar crédito não é favor. É o mínimo.
O Estúdio Fanara produz retratos e imagens corporativas para empresas e profissionais em Niterói. Todo material entregue inclui identificação completa de autoria para uso em assessoria de imprensa e publicação. Entre em contato.
João Fanara

