Em 9 de junho, o CNJ aprovou um conjunto de orientações para proteger os processos de uma fraude nova: comandos ocultos inseridos em petições para enganar a inteligência artificial dos tribunais. Tem nome técnico, prompt injection, e já gerou suspensão de advogadas no Pará. O CNJ chegou a criar um programa permanente só para monitorar esse tipo de manipulação.

Pare um segundo no que isso significa.

O sistema de Justiça, que lida com prova há séculos, agora precisa de um mecanismo dedicado para responder uma pergunta que parecia boba até ontem: isto aqui é real ou foi fabricado por uma máquina?

E não é só o tribunal fazendo essa pergunta. O mercado inteiro começou a fazer.

Atendo advogados o suficiente para reconhecer um padrão. O profissional cuida da escrita da petição, do raciocínio, da sustentação oral. Investe anos nisso. E mantém no LinkedIn uma foto que ele mesmo não sabe de quando é. Às vezes é um recorte de festa. Às vezes é um avatar gerado por IA, daqueles que prometem headshot pronto em dez minutos.

O problema do avatar de IA é o mesmo problema do prompt oculto na petição. Os dois são uma versão sintética querendo passar por verdadeira. E a diferença é que o cliente, hoje, já aprendeu a sentir isso. Ele bate o olho num rosto bom demais, liso demais, e desconfia. Não sabe nomear, mas desconfia.

Honestamente, isso é o oposto do que um advogado precisa comunicar. A profissão inteira se sustenta em uma coisa: a palavra dele merece crédito. A primeira prova de crédito que o cliente vê não está na petição. Está na cara da pessoa, antes da primeira reunião.

O cérebro forma julgamento de competência em torno de 100 milissegundos olhando um rosto. É a pesquisa do Alexander Todorov, em Princeton. Cem milissegundos é menos do que o tempo de ler o seu nome no perfil. A foto fala antes de você.

Num ambiente que está aprendendo a desconfiar do que é gerado por máquina, a foto real e bem feita parou de ser vaidade. Virou sinal. O sinal de que tem uma pessoa de verdade ali, que não terceirizou nem o próprio rosto.

A foto de um advogado não precisa ser fabricada para impressionar. Precisa ser real o bastante para que ninguém precise perguntar se é.

João Fanara
Retratos para advogados

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