Não foto de celular borrada na virada do ano. Uma foto onde todo mundo aparece bem, onde dá pra reconhecer cada rosto daqui a vinte anos.
Se precisou pensar mais de cinco segundos, já é uma resposta.
Niterói tem 23% da população com mais de 60 anos, mais idosos do que jovens com até 18. A prefeitura incluiu isso como primeira prioridade no planejamento da cidade. Faz sentido. Mas tem uma coisa que nenhum programa municipal resolve: o registro de quem está aqui agora, enquanto ainda dá tempo.
Minha avó morreu sem que a gente tivesse uma foto decente dela com os filhos adultos. Tem foto de quando eles eram crianças, foto de casamento. Depois, um hiato de vinte anos. A gente sempre achou que ia fazer isso numa próxima vez.
O retrato de família era um costume. As famílias iam ao estúdio, se arrumavam, apareciam. A foto ficava na parede da sala. Os netos cresciam olhando pra ela. Isso foi desaparecendo quando o celular chegou com a promessa de que toda hora é hora de fotografar. O resultado é que a gente tem milhares de imagens e quase nenhuma que vale guardar de verdade. Foto de WhatsApp não substitui um retrato. São coisas diferentes.
Aqui no estúdio, antes de qualquer ensaio de família, eu pergunto o que as pessoas querem guardar daquele momento. Às vezes é a última foto com o pai antes de uma cirurgia difícil. Às vezes é o registro dos netos com os avós enquanto ainda têm saúde pra vir até aqui. Às vezes não tem motivo específico, só a vontade de ter isso feito. Qualquer um desses é razão suficiente pra marcar.
A configuração da família muda o tempo todo. Alguém parte. Alguém nasce. Alguém envelhece de um jeito que a gente só percebe quando olha uma foto antiga e compara. A foto que não foi tirada em 2024 não existe mais.
Se tem alguém da sua família com mais de 60 anos, vale pensar nisso enquanto ainda dá tempo de planejar com calma.
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